Arquivo da categoria ‘Filosofia’

Sobre o Teatro de Marionetes

Sábado, Março 22, 2008

Heinrich von Kleist

Heinrich von Kleist

Teatro de Marionetes
(tradução de Paulo Mendes Campos)

Sobre o Teatro de Marionetes
(tradução de Ianchelli Ghinzberg)

Estas edições eletrônicas do extraordinário ensaio de Kleist foram preparadas a partir da digitalização das publicações originais, que estão esgotadas há muitos anos. Decidi não realizar o reconhecimento ótico de caracteres (OCR) para evitar possíveis equívocos no estabelecimento dos textos. Entretanto, duas pequenas gralhas demasiadamente evidentes, uma em cada edição, foram corrigidas diretamente nos arquivos de imagem.

A obra de Heinrich von Kleist está sob domínio público. Tudo indica que a tradução de Paulo Mendes Campos, por ter sido publicada pelo então Ministério da Educação e Saúde (em 1952), e a de Ianchelli Ghinzberg, por ter sido publicada numa revista universitária de uma universidade pública (em 1970), estão igualmente sob domínio público.

De todo modo, creio não haver razões para preocupação quanto ao uso destes fac-símiles. Basta que você se comprometa (caso descubra posteriormente que os textos não estão sob domínio público) a comprar um exemplar das respectivas traduções tão logo elas sejam reeditadas.

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Teatro de Marionetes
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Sobre o Teatro de Marionetes
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Nietzsche, por Gilles Deleuze: a filosofia

Domingo, Dezembro 16, 2007

Nietzsche integra à filosofia dois meios de expressão, o aforismo e o poema. Essas formas implicam, nelas mesmas, uma nova concepção da filosofia, uma nova imagem do pensador e do pensamento. Nietzsche substitui o ideal do conhecimento, a descoberta do verdadeiro, pela interpretação e avaliação. Uma fixa o “sentido”, sempre parcial e fragmentário, de um fenômeno; a outra determina o “valor” hierárquico dos sentidos, e totaliza os fragmentos sem atenuar nem suprimir sua pluralidade. O aforismo é precisamente a arte de interpretar e a coisa a interpretar; o poema, ao mesmo tempo a arte de avaliar e a coisa a avaliar. O intérprete é o fisiólogo ou o médico, aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. O avaliador é o artista, que considera e cria “perspectivas”, que fala pelo poema. O filósofo do futuro é artista e médico – em uma palavra, legislador.

Essa imagem do filósofo é também a mais velha, a mais antiga. É a do pensador pré-socrático, “fisiólogo” e artista, intérprete e avaliador do mundo. Como compreender essa intimidade do futuro e do original? O filósofo do futuro é ao mesmo tempo explorador de velhos mundos, cumes e cavernas, e só cria à força de se lembrar de alguma coisa que foi essencialmente esquecida. Essa alguma coisa, segundo Nietzsche, é a unidade do pensamento e da vida. Unidade complexa: um passo para a vida, um passo para o pensamento. Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensamento criam maneiras de viver. A vida ativa o pensamento, e o pensamento por sua vez afirma a vida. Dessa unidade pré-socrática nós já não temos sequer a idéia. Nós só temos exemplos em que o pensamento refreia e mutila a vida, modera-a, e onde a vida se vinga, transtornando o pensamento e se perdendo com ele. Nós já não temos escolha senão entre vidas medíocres e pensadores loucos. Vidas demasiadamente sábias para um pensador, pensamentos demasiadamente loucos para um vivo: Kant e Hölderlin. Porém a bela unidade permanece por ser reencontrada, de tal modo que a loucura já não seria loucura – unidade que faz de uma anedota da vida um aforismo do pensamento, e de uma avaliação do pensamento, uma nova perspectiva da vida.

Esse segredo dos pré-socráticos está, de certa maneira, perdido desde a origem. Nós devemos pensar na filosofia como uma força. Ora, a lei das forças é que elas só podem aparecer cobrindo-se com a máscara das forças preexistentes. A vida deve primeiramente imitar a matéria. Foi preciso que a força filosófica, no momento em que nascia na Grécia, se disfarçasse para sobreviver. Era preciso que o filósofo tomasse emprestado o aspecto das forças precedentes, que ele vestisse a máscara do sacerdote. O jovem filósofo grego tem algo do velho sacerdote oriental. Ainda hoje nos enganamos: Zoroastro e Heráclito, os Hindus e os Eleatas, os Egípcios e Empédocles, Pitágoras e os Chineses – todas as confusões possíveis. Fala-se do filósofo ideal, de seu ascetismo, de seu amor pela sabedoria; mas não se sabe adivinhar a solidão e a sensualidade particulares, os fins muito pouco sábios de uma existência perigosa que se escondiam sob essa máscara. O segredo da filosofia, uma vez que está perdido desde a origem, permanece por ser descoberto no futuro.

Era pois fatal que a filosofia só se desenvolvesse na história degenerando, e voltando-se contra si, deixando-se prender à sua máscara. Ao invés da unidade de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, vê-se o pensamento dar-se a tarefa de julgar a vida, de lhe opor valores pretensamente superiores, de medi-la com esses valores e de limitá-la, condená-la. Ao mesmo tempo em que o pensamento torna-se, assim, negativo, vê-se a vida depreciar-se, deixar de ser ativa, reduzir-se às suas formas mais fracas, a formas doentias somente compatíveis com os valores superiores. Triunfo da “reação” sobre a vida ativa, e da negação sobre o pensamento afirmativo. São pesadas as conseqüências para a filosofia. Pois as duas virtudes do filósofo legislador eram a crítica de todos os valores estabelecidos, isto é, dos valores superiores à vida e do princípio do qual eles dependem, e a criação de novos valores, valores da vida que reclamam outros princípios. Martelo e transmutação. Mas ao mesmo tempo em que a filosofia degenera, o filósofo legislador cede lugar ao filósofo submisso. Ao invés da crítica aos valores estabelecidos, ao invés do criador de novos valores e de novas avaliações, surge o conservador dos valores admitidos. O filósofo deixa de ser fisiólogo ou médico para tornar-se metafísico; ele deixa de ser poeta para tornar-se “professor público”. Ele se diz submetido às exigências do verdadeiro, da razão; mas sob as exigências da razão, reconhece-se muitas vezes forças que não são tão razoáveis assim, Estados, religiões, valores em curso. A filosofia torna-se apenas o recenseamento de todas as razões que o homem se dá para obedecer. A filosofia invoca o amor pela verdade, mas essa verdade não faz mal a ninguém (“ela aparece como uma criatura bonachona que ama suas facilidades e dá sem cessar a todos os poderes estabelecidos a segurança de que ela jamais causará a ninguém o menor embaraço, pois ela é apenas, no fim das contas, ciência pura.”) (1) O filósofo avalia a vida de acordo com sua aptidão a suportar pesos, a carregar fardos. Esses fardos, esses pesos são precisamente os valores superiores. Esse é o espírito de gravidade que reúne num mesmo deserto o carregador e o carregado, a vida reativa e depreciada, o pensamento negativo e depreciador. Então, tem-se apenas uma ilusão de crítica e um fantasma de criação. Pois nada é mais oposto ao criador do que o carregador. Criar é aligeirar, é descarregar a vida, inventar novas possibilidades de vida. O criador é legislador – dançarino.

A degenerescência da filosofia aparece claramente com Sócrates. Se a metafísica é definida pela distinção entre dois mundos, pela oposição entre essência e aparência, verdadeiro e falso, inteligível e sensível, é preciso dizer que Sócrates inventa a metafísica: ele faz da vida alguma coisa que deve ser julgada, medida, limitada, e do pensamento, uma medida, um limite, que se exerce em nome dos valores superiores – o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem… Com Sócrates, aparece o tipo de um filósofo voluntária e sutilmente submisso. Mas continuemos, saltemos os séculos. Quem pode acreditar que Kant tenha restaurado a crítica, ou reencontrado a idéia de um filósofo legislador? Kant denuncia as falsas pretensões ao conhecimento, mas não coloca em questão o ideal de conhecimento; denuncia a falsa moral, mas não coloca em questão as pretensões da moralidade, nem a natureza e a origem de seus valores. Ele nos critica por termos misturado os domínios, os interesses; porém os domínios permanecem intactos, e os interesses da razão, sagrados (o verdadeiro conhecimento, a verdadeira moral, a verdadeira religião).

A própria dialética prolonga esse passe de mágica. A dialética é essa arte que nos convida a recuperar propriedades alienadas. Tudo volta ao espírito, como motor e produto da dialética; ou à consciência de si; ou mesmo ao homem como ser genérico. Mas se nossas propriedades exprimem nelas mesmas uma vida diminuída, e um pensamento mutilador, de que nos serve recuperá-las, ou nos tornar seu verdadeiro sujeito? Suprimiu-se a religião quando se interiorizou o padre, quando ele foi posto no fiel, à maneira da Reforma? Matou-se Deus quando se colocou o homem em seu lugar e guardou-se o essencial, isto é, o lugar? A única mudança é esta: ao invés de ser carregado de fora, o próprio homem se encarrega de pegar os pesos para colocá-los sobre suas costas. O filósofo do futuro, o filósofo-médico, diagnosticará a continuação de um mesmo mal sob sintomas diferentes: os valores podem mudar, o homem colocar-se no lugar de Deus, o progresso, a felicidade, a utilidade podem substituir o verdadeiro, o bem ou o divino – o essencial não muda, isto é, as perspectivas ou avaliações das quais dependem esses valores, velhos ou novos. Convidam-nos sempre a nos submeter, a nos carregar com um peso, a reconhecer somente as formas reativas de vida, as formas acusatórias do pensamento. Quando nós já não queremos, quando já não podemos no carregar com os valores superiores, convidam-nos ainda a assumir “o Real tal como ele é” – mas esse Real tal qual ele é, é precisamente o que os valores superiores fizeram da realidade! (Mesmo o existencialismo guardou em nossos dias um gosto espantoso de carregar, de assumir, um gosto propriamente dialético que o separa de Nietzsche.)

Nietzsche é o primeiro a nos ensinar que não basta matar Deus para operar a transmutação dos valores. Na obra de Nietzsche há múltiplas versões da morte de Deus, pelo menos quinze, todas de uma grande beleza (2). Mas precisamente, de acordo com uma das mais belas, o assassino de Deus é “o mais repugnante dos homens”. Nietzsche quer dizer que o homem torna-se ainda mais feio quando, já não tendo necessidade de uma instância exterior, proíbe a si mesmo aquilo que lhe proibiam, e encarrega-se espontaneamente de um policiamento e de fardos que já não lhe parecem vir de fora. Desse modo, a história da filosofia, dos socráticos aos hegelianos, continua sendo a história das longas submissões do homem e das razões que ele dá a si mesmo para legitimá-las. Esse movimento da degenerescência não afeta somente a filosofia, mas exprime o devir mais geral, a categoria mais fundamental da história. Não um fato na história, mas o princípio mesmo do qual decorrem a maior parte dos acontecimentos que determinaram nosso pensamento e nossa vida, sintomas de uma decomposição. Tanto que a filosofia verdadeira, como filosofia do futuro, não é nem histórica nem eterna: ela deve ser intempestiva, sempre intempestiva.

* * *

Toda interpretação é determinação do sentido de um fenômeno. O sentido consiste precisamente numa relação de forças de acordo com a qual algumas agem e outras reagem num conjunto complexo e hierarquizado. Seja qual for a complexidade de um fenômeno, podemos distinguir nele forças ativas, primárias, de conquista e subjugação, e forças reativas, secundárias, de adaptação e regulação. Essa distinção não é apenas quantitativa, mas qualitativa e topológica. Mas a essência da força é a de estar em relação com outras forças; e, nessa relação, ela recebe sua essência ou qualidade.

A relação da força com a força chama-se “vontade”. Eis porque, antes de mais nada, é preciso evitar os contra-sensos sobre o princípio nietzscheano de vontade de potência. Esse princípio não significa (ou ao menos não significa primordialmente) que a vontade queira a potência ou deseje dominar. Interpretar vontade de potência no sentido de “desejo de dominar” implica em fazê-la depender de valores estabelecidos, os únicos aptos a determinar quem deve ser “reconhecido” como o mais potente neste ou naquele caso, neste ou naquele conflito. Assim fazendo, desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as nossas avaliações, como princípio oculto para a criação de novos valores não reconhecidos. A vontade de potência, diz Nietzsche, não consiste em cobiçar nem mesmo em tomar, mas em dar e criar. A Potência, como vontade de potência, não é aquilo que a vontade quer, mas aquilo que quer na vontade (Dionísio em pessoa). A vontade de potência é o elemento diferencial do qual derivam as forças em presença e sua qualidade respectiva em um complexo. Ela também é apresentada como um elemento móvel, aéreo, pluralista. É por vontade de potência que uma força comanda, mas é também por vontade de potência que uma força obedece. Aos dois tipos ou qualidades de forças correspondem pois duas faces, dois qualia da vontade de potência, caracteres últimos e fluentes, mais profundos do que as forças que deles derivam. Pois a vontade de potência faz com que as forças ativas afirmem, e afirmem sua própria diferença: nelas a afirmação é primeira, e a negação não passa de uma conseqüência, como um suplemento de gozo. Mas o próprio das forças reativas, ao contrário, é opor-se de saída àquilo que elas não são, limitar o outro: nelas a negação é primeira, e é pela negação que elas chegam a uma aparência de afirmação. Afirmação e negação são, portanto, os qualia da vontade de potência, como ativo e reativo são as qualidades das forças. E assim como a interpretação encontra os princípios do sentido nas forças, a avaliação encontra os princípios dos valores na vontade de potência. – Evitaremos, por fim, em função das considerações terminológicas precedentes, a redução do pensamento de Nietzsche a um simples dualismo. Pois, como veremos, pertence essencialmente à afirmação ser nela mesma múltipla, pluralista, e à negação ser una, ou pesadamente monista.

Ora, a história nos coloca na presença do mais estranho fenômeno: as forças reativas triunfam, a negação prevalece na vontade de potência! Não se trata apenas da história do homem, mas da história da vida, e a da Terra, ao menos sobre sua face habitada pelo homem. Em toda parte, vemos o triunfo do “não” sobre o “sim”, da reação sobre a ação. Até a vida torna-se adaptativa e reguladora, reduzindo-se às suas formas secundárias: nós nem mesmo compreendemos o que significa agir. Mesmo as forças da Terra se esgotam sobre essa face desolada. Nietzsche chama essa vitória comum das forças reativas e da vontade de negar de “niilismo” – ou triunfo dos escravos. De acordo com ele, a análise do niilismo é o objeto da psicologia, desde que se compreenda que essa psicologia é também a do cosmos.

Parece difícil, para uma filosofia da força ou da vontade, explicar como as forças reativas, como os “escravos”, os “fracos”, prevalecem. Pois se eles prevalecem formando, todos juntos, uma força maior do que a dos fortes, não dá para perceber o que mudou, e sobre que se pode fundar uma avaliação qualitativa. Mas na verdade os fracos, os escravos não triunfam pela soma de suas forças, mas pela subtração da força do outro: eles separam o forte daquilo que ele pode. Eles triunfam não pela composição de sua potência, mas pela potência de seu contágio. Eles arrastam todas as forças para um devir reativo. É isso a “degenerescência”. Nietzsche mostra desde então que os critérios da luta pela vida, da seleção natural, favorecem necessariamente os fracos e os doentes enquanto tais, os “secundários” (chama-se doente uma vida reduzida a seus processos reativos). Com ainda mais razão, no caso do homem, os critérios da história favorecem os escravos como tais. É um devir-doentio de toda a vida, um devir-escravo de todos os homens que constituem a vitória do niilismo. Evitaremos também os contra-sensos sobre os termos nietzscheanos “forte” e “fraco”, “mestre” e “escravo”: é evidente que o escravo não deixa de ser escravo quando toma o poder, nem o fraco deixa de ser um fraco. As forças reativas, prevalecendo, não deixam de ser reativas. Pois, segundo Nietzsche, trata-se em todas as coisas de uma tipologia qualitativa, trata-se de baixeza e de nobreza. Nossos mestres são escravos que triunfam num devir-escravo universal: o homem europeu, o homem doméstico, o tolo… Nietzsche descreve os estados modernos como formigueiros onde os chefes e os poderosos prevalecem por sua baixeza, pelo contágio dessa baixeza e dessa tolice. Seja qual for a complexidade de Nietzsche, o leitor advinha facilmente em que categoria (ou seja, em que tipo) ele teria classificado a raça dos “mestres” concebida pelos nazistas. É somente quando o niilismo triunfa que a vontade de potência deixa de querer dizer “criar” e passa a significar: querer a potência, desejar o domínio (e portanto atribuir-se ou fazer-se atribuir os valores estabelecidos, dinheiro, honras, poder…). Ora, essa vontade de potência é precisamente a do escravo, é a maneira pela qual o escravo ou o impotente concebe a potência, a idéia que ele tem dela, e que ele aplica quando triunfa. Um doente pode muito bem dizer: “ah, se eu estivesse bem de saúde, eu faria isto” – e talvez ele o fizesse – mas seus projetos e concepções são ainda os de um doente, nada mais do que os de um doente. É a mesma coisa com o escravo e sua concepção da maestria ou da potência. É a mesma coisa com o homem reativo e sua concepção de ação. Por toda parte, a reversão dos valores e das avaliações, por toda parte as coisas vistas pelo seu lado pequeno, as imagens revertidas como no olho de boi. Uma das maiores frases de Nietzsche é esta: “É preciso sempre defender os fortes contra os fracos.”

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(1) Considerações intempestivas, Schopenhauer educador, § 3.

(2) Cita-se por vezes o texto intitulado “O insensato” (Gaia Ciência, III, 125) como a primeira grande versão da morte de Deus. Não é assim: O viajante e sua sombra contém um admirável relato intitulado “Os Prisioneiros”. Esse texto possui misteriosas ressonâncias com Kafka.

Nietzsche, par Gilles Deleuze: Paris, PUF, 1965 (13ª edição, 2006), pp. 17-27. Tradução minha.

Um estranho ascetismo (por Gilles Deleuze)

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

“Nietzsche sabia bem, por tê-lo vivido, o que constitui o mistério da vida de um filósofo. O filósofo se apodera de virtudes ascéticas – humildade, pobreza, castidade – para fazê-las servir a fins inteiramente particulares, inauditos, muito pouco ascéticos na verdade.(1) Ele faz delas a expressão de sua singularidade. Elas não são para ele fins morais, nem meios religiosos para uma outra vida, mas antes “efeitos” da própria filosofia. Pois não há em absoluto outra vida para o filósofo. Humildade, pobreza, castidade tornam-se desde já os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, suficientemente potente por ter conquistado o pensamento e subordinado qualquer outro instinto – o que Spinoza chama de Natureza: uma vida que não se vive mais a partir da necessidade, em função de meios e de fins, mas a partir de uma produção, de uma produtividade, de uma potência, em função das causas e dos efeitos. Humildade, pobreza, castidade, são a maneira característica do filósofo de ser um Grande Vivente, e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa demasiadamente orgulhosa, demasiadamente rica, demasiadamente sensual. (…) Aqui toma todo seu sentido a solidão do filósofo. Pois ele não pode integrar-se em nenhum meio, ele não é bom para nenhum. Sem dúvida é nos meios democráticos e liberais que ele encontra as melhores condições de vida, ou melhor, de sobrevivência. Mas esses meios são para ele somente a garantia de que os maus não poderão envenenar nem mutilar a vida, separá-la da potência de pensar que conduz um pouco mais longe do que os fins de um Estado, de uma sociedade e de todo meio em geral. Em toda sociedade, mostrará Spinoza, trata-se de obedecer e nada mais: eis porque as noções de falta, de mérito e de demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, dizendo respeito à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será portanto aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e guarda-se em seu próprio interesse de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, toda ação torna-se culpável, toda vida ameaçada. É certo que o filósofo encontra no Estado democrático e nos meios liberais as condições mais favoráveis. Mas em nenhum caso ele confunde seus fins com os fins de um Estado, nem com os fins de um meio, uma vez que ele solicita no pensamento forças que se furtam à obediência como à falta, e ergue a imagem de uma vida para além do bem e do mal, rigorosa inocência sem mérito nem culpabilidade. O filósofo pode habitar diversos Estados, assombrar diversos meios, mas à maneira de um eremita, de uma sombra, viajante, locatário de pensões mobiliadas. Por isso não se deve imaginar Spinoza rompendo com um meio judeu supostamente fechado para entrar em meios liberais supostamente abertos, cristianismo liberal, cartesianismo, burguesia favorável aos irmãos de Witt… Pois, seja lá para onde ele for, ele não pede, ele não reclama, com maior ou menor chance de sucesso, senão ser tolerado, ele mesmo e seus fins insólitos, e julga por essa tolerância o grau de democracia, o grau de verdade, que uma sociedade pode suportar, ou então ao contrário o perigo que ameaça todos os homens. (…) É preciso compreender como um todo o método geométrico, a profissão de polir lentes e a vida de Spinoza. Pois Spinoza faz parte dos viventes-videntes. Ele diz precisamente que as demonstrações são os “olhos do espírito”. (2) Trata-se do terceiro olho, aquele que permite enxergar a vida para além das falsas aparências, das paixões e dos mortos. Para uma tal visão são necessárias as virtudes, humildade, pobreza, castidade, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a esposam e a penetram. Spinoza não acreditava na esperança e nem mesmo na coragem; ele só acreditava na alegria e na visão. Ele deixava os outros viverem, desde que os outros o deixassem viver. Ele queria somente inspirar, despertar, fazer ver. A demonstração como terceiro olho não tem por objeto comandar e nem mesmo convencer, mas somente produzir a luneta ou polir o vidro para essa visão livre inspirada. «No meu entender, vejam, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito ocupados em polir lentes. Tudo isso não passa de grandes preparativos em vista de um acontecimento que não se produz jamais. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia nós todos perceberemos claramente a assombrosa, a extraordinária beleza deste mundo…» (Henry Miller).”

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(1) Nietzsche, A genealogia da moral, III.
(2) Tratado teológico-político, cap. 13; Ética, V, 23, escólio.

Gilles Deleuze: Spinoza, Philosophie pratique, Paris, De Minuit, 1981 (1970), pp. 9-11/23-24. Tradução minha.

(primeira versão: caosmos, 13/05/2004)

sobre a imitação

Sexta-Feira, Fevereiro 9, 2007

“Voltemos ao casal social elementar que eu mencionei há pouco, não o casal do homem e da mulher que se amam – esse casal, enquanto sexual, é puramente vital – mas o casal de duas pessoas, seja qual for o sexo a que elas pertencem, no qual uma age espiritualmente sobre a outra. Eu afirmo que a relação dessa duas pessoas é o elemento único e necessário da vida social, e que ele consiste sempre, originalmente, em uma imitação de um pelo outro. Porém trata-se de bem compreender isto para não cair sob o golpe de vãs e superficiais objeções. O que não se poderia me contestar é que dizendo, fazendo, pensando não importa o que, uma vez engajados na vida social, nós imitamos outrem a cada instante, a menos que nós inovemos, o que é raro; e ainda é fácil mostrar que nossas inovações são em sua maior parte combinações de exemplos anteriores, e que elas permanecem estranhas à vida social enquanto não forem imitadas. Vocês não dizem uma palavra que não seja a reprodução agora inconsciente, mas inicialmente consciente e desejada, de articulações verbais remontando ao mais longínquo passado com um sotaque característico da sua vizinhança; vocês não realizam um rito de sua religião, sinal da cruz, prece, que não reproduza gestos e fórmulas tradicionais, ou seja, formadas pela imitação dos ancestrais; vocês não executam uma ordem militar ou civil qualquer, ou um ato qualquer de sua profissão que não tenha sido ensinada e que não tenham copiado de um modelo vivo; vocês não dão uma pincelada, se são pintores, não escrevem um verso, se são poetas, que não seja conforme aos hábitos ou à prosódia de sua escola; e sua própria originalidade é feita de banalidades acumuladas, e aspira a tornar-se banal por sua vez.

Assim, o caráter constante de um fato social, qualquer que seja, é ser imitativo. E esse caráter é exclusivamente próprio aos fatos sociais.”

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Gabriel Tarde: Les Lois Sociales – Esquisse d’une Sociologie, Paris, Félix Alcan, 1898, p. 34-35. Tradução minha.

A noção de virtualidade em Bergson

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Bergson elaborou sua filosofia e seus principais conceitos a partir de estudos específicos de temas bem delimitados, embora em cada um desses estudos ele levantasse um desses “grandes problemas” propriamente filosóficos. Analisando suas obras, no entanto, perceberemos a recorrência constante daquela que talvez seja a noção-chave de sua filosofia. Este estudo procura mostrar como a noção de virtualidade está implicada na teoria bergsoniana da memória, do tempo, da evolução, bem como em suas concepções relativas ao pensamento, à linguagem e à criação, e como ela exprime toda uma orientação característica, essencial, do pensamento de Bergson.

Dissertação de mestrado (em Filosofia) defendida em dezembro de 1996 na UFRJ.

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