Um estranho ascetismo (por Gilles Deleuze)

“Nietzsche sabia bem, por tê-lo vivido, o que constitui o mistério da vida de um filósofo. O filósofo se apodera de virtudes ascéticas – humildade, pobreza, castidade – para fazê-las servir a fins inteiramente particulares, inauditos, muito pouco ascéticos na verdade.(1) Ele faz delas a expressão de sua singularidade. Elas não são para ele fins morais, nem meios religiosos para uma outra vida, mas antes “efeitos” da própria filosofia. Pois não há em absoluto outra vida para o filósofo. Humildade, pobreza, castidade tornam-se desde já os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, suficientemente potente por ter conquistado o pensamento e subordinado qualquer outro instinto – o que Spinoza chama de Natureza: uma vida que não se vive mais a partir da necessidade, em função de meios e de fins, mas a partir de uma produção, de uma produtividade, de uma potência, em função das causas e dos efeitos. Humildade, pobreza, castidade, são a maneira característica do filósofo de ser um Grande Vivente, e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa demasiadamente orgulhosa, demasiadamente rica, demasiadamente sensual. (…) Aqui toma todo seu sentido a solidão do filósofo. Pois ele não pode integrar-se em nenhum meio, ele não é bom para nenhum. Sem dúvida é nos meios democráticos e liberais que ele encontra as melhores condições de vida, ou melhor, de sobrevivência. Mas esses meios são para ele somente a garantia de que os maus não poderão envenenar nem mutilar a vida, separá-la da potência de pensar que conduz um pouco mais longe do que os fins de um Estado, de uma sociedade e de todo meio em geral. Em toda sociedade, mostrará Spinoza, trata-se de obedecer e nada mais: eis porque as noções de falta, de mérito e de demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, dizendo respeito à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será portanto aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e guarda-se em seu próprio interesse de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, toda ação torna-se culpável, toda vida ameaçada. É certo que o filósofo encontra no Estado democrático e nos meios liberais as condições mais favoráveis. Mas em nenhum caso ele confunde seus fins com os fins de um Estado, nem com os fins de um meio, uma vez que ele solicita no pensamento forças que se furtam à obediência como à falta, e ergue a imagem de uma vida para além do bem e do mal, rigorosa inocência sem mérito nem culpabilidade. O filósofo pode habitar diversos Estados, assombrar diversos meios, mas à maneira de um eremita, de uma sombra, viajante, locatário de pensões mobiliadas. Por isso não se deve imaginar Spinoza rompendo com um meio judeu supostamente fechado para entrar em meios liberais supostamente abertos, cristianismo liberal, cartesianismo, burguesia favorável aos irmãos de Witt… Pois, seja lá para onde ele for, ele não pede, ele não reclama, com maior ou menor chance de sucesso, senão ser tolerado, ele mesmo e seus fins insólitos, e julga por essa tolerância o grau de democracia, o grau de verdade, que uma sociedade pode suportar, ou então ao contrário o perigo que ameaça todos os homens. (…) É preciso compreender como um todo o método geométrico, a profissão de polir lentes e a vida de Spinoza. Pois Spinoza faz parte dos viventes-videntes. Ele diz precisamente que as demonstrações são os “olhos do espírito”. (2) Trata-se do terceiro olho, aquele que permite enxergar a vida para além das falsas aparências, das paixões e dos mortos. Para uma tal visão são necessárias as virtudes, humildade, pobreza, castidade, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a esposam e a penetram. Spinoza não acreditava na esperança e nem mesmo na coragem; ele só acreditava na alegria e na visão. Ele deixava os outros viverem, desde que os outros o deixassem viver. Ele queria somente inspirar, despertar, fazer ver. A demonstração como terceiro olho não tem por objeto comandar e nem mesmo convencer, mas somente produzir a luneta ou polir o vidro para essa visão livre inspirada. «No meu entender, vejam, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito ocupados em polir lentes. Tudo isso não passa de grandes preparativos em vista de um acontecimento que não se produz jamais. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia nós todos perceberemos claramente a assombrosa, a extraordinária beleza deste mundo…» (Henry Miller).”

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(1) Nietzsche, A genealogia da moral, III.
(2) Tratado teológico-político, cap. 13; Ética, V, 23, escólio.

Gilles Deleuze: Spinoza, Philosophie pratique, Paris, De Minuit, 1981 (1970), pp. 9-11/23-24. Tradução minha.

(primeira versão: caosmos, 13/05/2004)

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