Cultura e política

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Cada indivíduo histórico foi um projeto de uma nova humanidade.¹

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A palavra “política” deriva do grego pólis, que significa cidade. Política é a arte de administrar a cidade, o Estado, a coisa pública (res publica). Administrar implica tomar decisões, seja diretamente (executivo), seja aprovando leis (legislativo), seja proferindo sentenças (judiciário). Numa palavra, tomar decisões é exercer o poder. Assim, pensar a política é pensar o Poder.

Cultura, por sua vez, é a ação do homem sobre o homem para produzir o homem. Nessa definição de Cultura está incluída (analiticamente) a ação de si sobre si mesmo ou autoprodução. Mais radicalmente, a essência da Cultura é a produção de si mesmo. Assim, pensar a Cultura é pensar a produção de si mesmo e a produção do outro, entendida principalmente como a contribuição que damos ao outro para que ele produza a si mesmo.

Há uma verticalidade inevitável na política. Não é possível consultar milhões de pessoas a cada decisão. Plebiscitos fogem a esta regra, mas plebiscitos somente respondem a questões previamente formuladas, e o poder continua sendo exercido por aqueles que formulam as questões. A propósito, a criação dos chamados conselhos populares, que atualmente está na pauta da esquerda brasileira, não suprime essa verticalidade. Ela apenas adiciona alguns grupos aos grupos já legitimados pelas eleições. Decisões continuarão sendo tomadas, e elas continuarão sendo tomadas por uns poucos.

A Cultura, por sua vez, é horizontal por excelência. Mais do que horizontal, ela é rizomática. Pode-se objetar que crianças são dependentes, em alto grau, de pais e educadores, e que não é possível suprimir inteiramente a verticalidade na Cultura. De acordo. Mas é possível (e desejável), por outro lado, ensinar às crianças o que é Cultura, e ir transferindo a elas, aos poucos, a responsabilidade que lhes cabe na produção de si mesmas.

A política é o reino das doutrinas e dos programas. Socialismo, conservadorismo e outros tantos “ismos” travam autênticas guerras ideológicas para estabelecer os critérios de acordo com os quais o poder deverá ser exercido, sobre muitos, por alguns poucos.

A Cultura, por sua vez, é o reino da Diferença. Produzir a si mesmo implica em reformular incessantemente a si mesmo, em diferenciar-se de si mesmo (e, por conseqüência, em diferenciar-se dos demais). Ora, na medida em que eu me diferencio, tenho algo de novo a oferecer aos demais. Minha diferença é do interesse de todos, e a diferença de cada um é do meu interesse. Quanto mais radical é o processo de diferenciação de cada um, maior é o benefício de todos. A diferença se alimenta da diferença. Ao produzir-me, eu estou, direta ou indiretamente, contribuindo para a autoprodução de todos os outros. Ao se produzirem, os outros estão, direta ou indiretamente, contribuindo para a minha autoprodução. Uma vez que nos colocamos do ponto de vista da Cultura, desaparece a falsa oposição entre o indivíduo e a coletividade, entre o privado e o público, entre o “egoísmo” e o “altruísmo” .

As linhas acima são apenas um rascunho, um esboço, uma blogada, e não dão conta da complexidade do tema. Ainda assim, espero que sejam suficientes para dar a perceber que a política deve subordinar-se inteiramente à Cultura. Aliás, boa parte da confusão atual, a meu ver, deriva do fato de que queremos pensar a política sem entender o que é Cultura. Queremos estabelecer fórmulas ou programas de ação sem sequer termos compreendido onde está o problema.

Inversamente, uma vez que tenhamos compreendido a primazia do problema da Cultura sobre todos os demais problemas, e que esteja claro que a Cultura, nela mesma, é a grande política, a política superior, qual deve ser nossa orientação política no sentido tradicional? Não há, no cenário político atual, uma resposta pronta a essa pergunta. Mas há alguns pontos óbvios que podem ser destacados.

1. Defesa intransigente da liberdade de expressão

Não podemos nos produzir sem dar ouvidos aos outros. Quanto mais ouvimos, mais estaremos em condições de estabelecer nossos próprios problemas e de inventar nosso próprio caminho. Se o meu direito de dar ouvidos a um outro, ou o direito do outro a me dar ouvidos, for suprimido ou mesmo dificultado, o processo de autoprodução de cada um será empobrecido. Inversamente, e este é um ponto ainda mal compreendido, qualquer iniciativa que suprima ou restrinja a liberdade de expressão deve ser severamente coibida. No mais, cada qual deve responder pelo que diz, como já acontece; liberdade de expressão não se confunde com liberdade de calúnia e difamação.

2. Defesa intransigente das liberdades individuais

Cabe a mim, e a mim somente, decidir de que maneira irei produzir a mim mesmo. Qualquer forma de autoritarismo que implique na supressão ou restrição do meu direito de produzir a mim mesmo deve ser coibida vigorosamente. Obviamente, minha liberdade termina onde começa a do outro.

3. Igualdade de oportunidades para todos

É no movimento da Cultura (e não na política) que se produz o chamado “bem comum”. Assim, deve-se assegurar que todos os homens gozem das condições concretas que possibilitem sua autoprodução. Não é preciso ser rico para produzir-se a si mesmo; longe disso, aliás. Mas duas coisas são essenciais: condições dignas de subsistência e tempo. Nesse sentido, o movimento de redução das jornadas de trabalho é uma daquelas limitações necessárias que a Cultura precisa impor ao capitalismo para que este não degenere em barbárie ou totalitarismo. A produção de bens e serviços é necessária e muito bem-vinda, uma vez que ela promove facilidades para a autoprodução de cada um. Nesse sentido, também ela participa do movimento da Cultura. Mas se perdermos de vista que o sentido da vida é produzir a si mesmo, tudo o mais perderá sentido. Não por acaso, é exatamente isso que está ocorrendo nos dias de hoje.

* * *

O leitor, a não ser que me acompanhe há algum tempo, poderá ter estranhado o conceito de Cultura que apresentei aqui. E não é sem razão. Até aqui, esta é minha humilde contribuição à Filosofia. Por isso optei por escrever a palavra com letra maiúscula: para sublinhar o caráter universal desse conceito, por um lado, e para diferenciá-lo de suas acepções usuais (antropológica, elitista, etc.).

Esse trabalho irá prosseguir, fora da Internet, em três livros. O primeiro, a ser publicado já em 2015, será um ensaio curto e acessível. O segundo será uma tese de doutorado em Filosofia. O terceiro seria dedicado a um diagnóstico da modernidade do ponto de vista desse novo conceito de cultura. A propósito, pretendo realizar meu doutorado na UFRJ, onde fiz o mestrado, mas isso não está certo e eu ainda nem procurei o professor com quem desejaria trabalhar. Estou, portanto, aberto a convites.

* * *

Aderir a um programa qualquer sempre será mais fácil do que ouvir o outro, produzir a si mesmo e pensar por conta própria. A cada eleição, repete-se a festa da democracia: um monte de retardados disputando o poder com seus programas debaixo do braço e uma multidão de eleitores enfarados com esse espetáculo lamentável. Mas, e esse é o ponto essencial, a solução do problema político não pode ser dada no interior do sistema político. Somar retardados amadores aos retardados profissionais só poderá resultar em mais retardamento. Democratizar a democracia é uma ótima idéia, e já existe uma excelente ferramenta para isso: a Internet. Que tal um fórum de discussões para que todas as pessoas possam participar e discutir? O que eu não aprovo é que um outro pense e decida em meu lugar. Se for para isso, já temos a democracia representativa.

Mas se não há uma solução mágica do problema político no interior do sistema político, onde está a solução? Eu diria que um primeiro passo seria uma reformulação cultural do sistema de ensino. Para isso, no entanto, precisamos de um conceito de cultura que funcione. Alunos precisam saber por que estão na escola: para terem mais meios de se produzirem a si mesmos. Professores precisam saber por que estão na escola: para ensinar aos alunos, juntamente com os conteúdos curriculares, que eles estão ali para aprender a se produzir. Esse novo conceito de Cultura é muito simples. Qualquer criança entende num piscar de olhos.

Por isso votei em Marina Silva para presidente. Entre os candidatos, ela me parecia ser a única capaz de compreender o que estou dizendo. Mas não podemos esperar que a solução venha de um político isolado, de um partido salvador e nem mesmo de uma reforma do sistema político. A solução é lenta, trabalhosa, assim como cultivar uma planta é um processo lento e cheio de cuidados. No prazo de apenas uma geração, entretanto, já teríamos um país inteiramente diferente.

¹ TARDE, Gabriel. As Leis sociais. Tradução de Francisco Fuchs. Editora da UFF, Niterói, 2012, p. 104.

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